Lernu

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segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Elite da Tropa



O filme Tropa de Elite levantou discussões, trouxe à baila a questão da tortura praticada pela polícia e do uso de drogas pela classe média, em oposição ao seu medo da violência urbana. Não vou discutir o filme, do qual eu gostei muito. Isso já foi muito bem feito por um monte de gente, em especial a Lu Monte, do Dia de Folga. Na onda do sucesso do filme, resolvi ler o livro. Li uma versão digitalizada do Elite da Tropa, usando meu velho Dell X50V e o uBook .

O livro foi uma decepção. Principalmente quando, após ter visto o filme, a gente espera a mesma discussão, porém de forma aprofundada. O tom da primeira parte do livro é o de cartarse. O narrador discorre sobre casos verídicos acontecidos em operações (oficiais ou não) do BOPE. O estilo é realista, simples e direto. Nada de enfeites. Os policiais não são colocados como heróis, nem como vilões. A discussão sobre a legalidade das ações policiais sequer é cogitada. Parte-se do pressuposto que a existência de tais ações é necessária e pronto. Nesse contexto a violência contida em várias histórias é chocante. Na verdade, quase desisti de ler o livro por causa disso. Esperei uns dias “de folga” para continuar. A segunda parte do livro não me prendeu a atenção. Trata-se de uma historinha chata sobre bandidos (do tráfico)de um lado e bandidos (da polícia ) de outro.

Na verdade, a leitura do livro aumentou em mim a admiração pela qualidade do filme: Daquele material bruto como origem, ganhamos uma obra de grande qualidade!

A solução do problema da ação da polícia nas favelas do Rio é multidisciplinar: Exige, claro, a preparação dos policiais para a guerra urbana com o conseqüente investimento em armas e treinamento. Mas exige também a preparação psicológica do Homem que vai usar esta arma. Aqueles que exercem o poder sofrem sempre a tentação de abusar dele. Esperar de um policial, no meio de um tiroteio, que se preocupe com a saúde de quem está atirando nele é tolice. No entanto, o grande desafio para os policiais, é conseguir limitar essa violência ao teatro de operações, ao momento do conflito e aos alvos específicos. Isso é usar a violência com a inteligência. Não podemos esquecer que a violência é apenas um instrumento. Só isso.

Os traficantes mostrados no livro e no filme são aqueles gerentes de Boca de Fumo, moradores do morro. Os verdadeiros traficantes, os responsáveis pelo negócio, aqueles com as gordas contas bancárias e moradores do asfalto não são brindados com o carinho da polícia... Não sequer citados de forma séria. Isso é o que mais me chama a atenção: Parece que somente condenamos a violência associada às classes baixas, sem ligá-la ao controle pelas classes dominantes. O crime organizado virou opção de investimento, e isso já tem muito tempo! Já passou da hora de discutirmos isso.