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sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Legalização do Aborto

Estamos entrando em um daqueles momentos decisivos no nosso país: Reacende-se a discussão sobre a descriminalização do aborto.
Ontem um bebê anencéfalo completou 10 meses de idade em São Paulo. Segundo a reportagem, a criança está até com peso acima do esperado. Em uma criança saudável, isso seria motivo de alegria para a família. Nesse caso, é apenas a constatação de que as funções vegetativas vão bem, portanto a expectativa de vida da criança é provavelmente grande, já que a média nesses casos é de apenas três meses. Será que a moral religiosa é tão insensível ao sofrimento dos pais e familiares desse bebê? Hoje em dia, com métodos modernos e seguros de diagnóstico para malformações congênitas graves, é um absurdo que um embrião/ feto com tal malformação nasça. Apenas uma legislação retrógrada e insensível obriga as famílias a suportar essa carga. E a "criança"? Que criança? O que temos ali é um ser vivo, sim... No entanto , aquelas funções que definem o que chamamos de ser humano nunca surgirão, pois não existe cérebro!
A gravidez indesejada leva dezenas de milhares de mulheres à praticar abortos ilegais. Aquelas que têm condições mínimas de pagar uma clínica clandestina correm o risco de uma intervenção em um ambiente sem controle sanitário, realizado por "profissionais" dos quais não se tem nenhuma informação. Para as clínicas e para os 'médicos" que as operam é um excelente negócio! Tudo que é necessário é investir em "segurança" e garantir que as autoridades não vejam o seu funcionamento. Imagine o lucro que um negócio desses dá! É como todo negócio ilegal: Lucro rápido, garantido muito superior ao investimento. Qualquer análise estatística dos dados OFICIAIS sobre mortes decorrentes de aborto mostra que é uma intervenção perigosa. Será que o fato de ser realizada em estabelecimentos clandestinos não agrava a situação?
Tenho certeza que 99% das mulheres que se submetem ao procedimento são religiosas, e que suas crenças condenam o aborto. E daí? Vamos, como sempre, usar a hipocrisia... É contra, é pecado... Mas quando a filha tem uma gravidez indesejada acompanha à clínica de aborto!
A atual legislação só permite o procedimento em 2 casos: Risco de vida para a mãe ou gravidez em decorrencia de estupro. Filhos de estupradores são menos dignos à vida do que filhos de outros criminosos... Isso é simplesmente Eugenia. O argumento do legislador seria que a Degeneração do pai passaria ao filho. Meu Deus!
Realmente é hora de falar, falar abertamente sobre o aborto. A sociedade mudou muito, a moral foi obrigada a discutir abertamente o comportamento sexual. Quem imaginaria, na década de 70, uma novela de televisão pregando o uso da camisinha. Não existiam DSTs naquela época? Claro, mais o surgimento da Pandemia de AIDS obrigou que a moral se adequasse à nova realidade. Já vi alunas saírem correndo da sala de aula quando o professor (eu) mostrava como colocar uma camisinha em uma banana. Acredito que hoje elas não corram mais.

5 comentários:

maristela disse...

helder, o tema requer realmente muita reflexão, há questões religiosas sim, envolvidas, e outras, de educação, culturais e mesmo do chamado foro íntimo. gravidez não é brincadeira, isso te digo como mãe de dois filhos.
tenho muitas amigas que abortaram e o sentimento que fica vai para o resto da vida. creio que a política anticonceptiva vem antes desta da questão do aborto. se hoje já há um horrível quadro de interupção de gravidez sem a menor condição de salvaguarda da mãe, quem garante que legalizada, a ação vai garantir que seja diferente? não esquece que vivemos num país em que as leis existem para serem mal cumpridas ou burladas.
mas vim aqui para te desejar um belo início de primavera neste domingo.
abraços

Helder Marques disse...

Com toda certeza! O esclarecimento e o acesso da população aos meios contraceptivos tem que ser dado... E isso passa pela educação. O que eu acredito é que não adianta "esconder" e fingir que a prática do aborto não existe. Independente da legalização, ela continuará existindo. O que penso é que, havendo regulamentação, existirão condições de controlar as clínicas e procedimentos.

Também te desejo uma linda primavera! (pq aqui, na selva, só tems duas estações mesmo...)
Abraços, Helder

Valdira disse...

Acredito que muitas mulheres que já fizeram aborto se culpam exatamente por que temos uma sociedade hipócrita que condena tal atitude. Ocorreu o mesmo quando as mulheres se separavam de seus maridos no passado, eram extremamente mal vistas, não eram aceitas pela sociedade e também se sentiam culpadas (como se tivessem culpa, em muitos casos, por não suportar a violência dos maridos). Nossa sociedade ainda discrimina as mulheres que sofrem violênias sexuais, em muitos casos são vistas como as "culpadas", talvez por terem provocado, por andarem à noite, por usarem roupas curtas... até quando vai esse pensamento tosco? Até quando vamos deixar que a religião controle nossas vidas sob o pretexto de tornar a sociedade mais moralizada?

Dany disse...

Muito legal o texto, real e direto! Concordo completamente, e tb com o comentario da Valdira. Mas o que eu mais queria era ter assistido a aula da banana! ;) Bjoes!

Priscila Alves disse...

Helder, tenho um blog sobre legalização do aborto e gostaria que se você possível você pudesse dar uma passadinha lá e quem sabe colocar um link de divulgação na sua página.